15 de junho de 2020


Rastreamento da Infecção por Clamídia


A infecção por Chlamydia trachomatis se inicia usualmente pela endocérvice, sendo que a ascensão do micro-organismo do trato geniturinário para o endométrio e para as tubas pode ser causa de dor no baixo ventre e de anormalidades menstruais.1,2,3
O paradoxo em relação à infecção por clamídia é que, mesmo assintomática, pode causar severa imunopatologia tubária. As complicações dessa infecção são a salpingite e a doença inflamatória pélvica aguda, afetando diretamente a vida reprodutiva da mulher, ocasionando, por vezes, esterilidade definitiva, dor pélvica crônica, gestação ectópica, constituindo grave problema de saúde pública.1,2,3
Infecção por Clamídia durante a gestação associa-se a vários resultados adversos, incluindo trabalho de parto prematuro, amniorrexe prematura, baixo peso ao nascer, óbito neonatal e endometrite pós-parto. Durante o parto, o feto pode adquirir a infecção em 50% a 75% das vezes. Aproximadamente 30% a 50% das crianças nascidas de mães infectadas pela Chlamydia trachomatis terão conjuntivite e quase 50% delas terão, também, infecção nasofaríngea, das quais 30% desenvolverão pneumonia.4,5
A infecção por Clamídia tem estreita relação com o HPV de alto risco no desenvolvimento do câncer cervical uterino.6,7,8
A clamídia pode aumentar a suscetibilidade ao HPV por causar microabrasões ou alterações nas células epiteliais que facilitam a entrada do vírus.6,7,9

Doença Inflamatória Pélvica

A doença inflamatória pélvica (DIPA) é responsável em 20% dos casos de infertilidade, podendo chegar a 50% entre mulheres que apresentam três ou mais episódios de infecção.10,11,12
Estudos clínicos randomizados sugerem que programas de rastreio de clamídia podem levar à redução da incidência da DIPA.13,14
O tratamento empírico com antibiótico das pacientes infectadas por clamídia deve ser iniciado o mais breve possível, para minimizar o risco de sequelas como a obstrução tubária e infertilidade.10,11,12
Atraso no início de tratamento em 3 dias pode aumentar o risco de infertilidade. Os antibióticos são efetivos em reduzir a morbidade em curto prazo, porém um número signifi cativo de mulheres tratadas podem apresentar sequelas futuras.10,11
Recomenda-se orientar a paciente diagnosticada por Doença Inflamatória Pélvica sobre os riscos de sequelas futuras, os cuidados para se evitar novas infecções e a importância do rastreamento da clamídia durante o exame periódico de Colpocitologia Oncótica.10,11

Clamídia e HPV como Fator de Risco do Câncer do Colo Uterino

Zhu et al (2016) conduziram a primeira meta-análise que forneceu significativa evidência do papel da infecção por C. trachomatis no desenvolvimento do câncer do colo do útero.6

Do total de 22 estudos incluídos na meta-análise, foram avaliados 4.291 casos de câncer do colo do útero e 7.628 casos controle.6

No geral, a infecção por Clamídia apresentou aumento signifi cativo do risco de câncer do colo do útero nos estudos prospectivos (OR=2,21, 95% IC:1,88–2,61, p<0,001), como também nos estudos retrospectivos (OR=2,19, 95% IC: 1,74–2,74, p< 0,001).6
Adicionalmente, nesse mesmo estudo foi realizada análise de regressão multivariada ajustada para HPV e idade;

Clamídia foi identificada como preditor independente de câncer do colo do útero em 11 estudos (OR=1,76, 95% IC: 1,03–3,01, p=0,04) (tabela 1).6

Pacientes com coinfecção por HPV e Clamídia demonstraram alto risco de câncer do colo uterino (OR = 4,03, 95% IC: 3,15–5,16, p < 0,001)(tabela 2).6

Na análise histológica de subgrupos de pacientes, houve elevado risco de carcinoma de células escamosas (OR=2,21, 95% IC: 2,00–2,45, p< 0,001) e de adenocarcinoma (OR=1,61, 95% IC: 1,21–2,15, p= 0,001) associado à Clamídia.6

É importante estender o rastreio da clamídia em mulheres com alto risco de infecções por HPV, benefi ciando as pacientes não somente na prevenção da Doença Inflamatória Pélvica e Infertilidade, mas também reduzindo o risco do câncer do colo do útero.6,7

Colpocitologia Oncótica em Meio Líquido

Uma única amostra possibilita múltiplos exames:
HPV
– Captura Híbrida.
– HPV por PCR Genotipagem 16 e 18.
– Detecção de Oncoproteínas E6/E7.
– Marcadores p16/Ki67.

Agentes Infecciosos
– PCR para identificação do DNA de patógenos: Chlamydia trachomatis, Trichomonas vaginalis, Streptococcus agalactiae, Mycoplasma hominis, Ureaplasma urealyticum, Herpes simples tipos 1 e 2, Neisseria gonorrhoeae e Candida albicans.

Avaliação do Risco de Trombose
– Fator V de Leiden.
– Mutação do Gene da Protrombina.
– MTHFR (Mutação Gene Metileno Tetrahidrofolato Redutase C677T e A1298C).

 

Referências Bibliográficas
1) Haggerty CL, Gottlieb SL, Taylor BD, Low N, Xu F, Ness RB. Risk of sequelae after Chlamydia trachomatis genital infection in women. J Infect Dis. 2010 Jun 15;201 Suppl 2:S134-55. doi: 10.1086/65239.
2) Malhotra M, Sood S, Mukherjee A, Muralidhar S, Bala M. Genital Chlamydia trachomatis: an update. Indian J Med Res. 2013 Sep;138(3):303-16.
3) Ljubin-Sternak S, Meštrović T. Chlamydia trachomatis and Genital Mycoplasmas: Pathogens with an Impact on Human Reproductive Health. J Pathog. 2014;2014:183167. doi: 10.1155/2014/183167.
4) Howie SE, Horner PJ, Horne AW. Chlamydia trachomatis infection during pregnancy: known unknowns. Discov Med. 2011 Jul;12(62):57-64.
5) Adachi K, Nielsen-Saines K, Klausner JD. Chlamydia trachomatis Infection in Pregnancy: The Global Challenge of Preventing Adverse Pregnancy and Infant Outcomes in Sub-Saharan Africa and Asia. Biomed Res Int. 2016;2016:9315757. doi: 10.1155/2016/9315757. Epub 2016 Apr 6.
6) Zhu H et al. Chlamydia Trachomatis Infection-Associated Risk of Cervical Cancer. A Meta-Analysis. Medicine, Volume 95, Number 13, April 2016.
7) Karim S et al. Cervical Cancer Induction Enhancement Potential of Chlamydia Trachomatis: A Systematic Review. Current Microbiology. Springer. Published on line: 22 January, 2018.
8) Witkin SS et al, 2017. Chlamydia trachomatis: the Persistent Pathogen. Clinical and Vaccine Immunology. American Society for Microbiology. October, Volume 24, Issue 10, pag 1-9.                                                                                                                                                         9) Price MJ et al. The natural history of Chlamydia trachomatis infection in women: a multi-parameter evidence synthesis. Health Technol Assess 2016;20(22).
10) Ross J. Pelvic Infl ammatory Disease. Medicine, 2010; 38(5): 255 – 259.
11) Newman L, Rowley J, Vander Hoorn S, Wijesooriya NS, Unemo M, Low N, Stevens G, Gottlieb S, Kiarie J, Temmerman M. Global Estimates of the Prevalence and Incidence of Four Curable Sexually Transmitted Infections in 2012 Based on Systematic Review and Global Reporting. PLoS One. 2015 Dec 8;10(12):e0143304. doi: 10.1371/journal.pone.0143304. eCollection 2015.
12) Braxton J et al. SexuallyTransmitted Disease Surveillance 2016. Surveillance and Data Management Branch, Division of STD Prevention National Center for HIV/AIDS, Viral Hepatitis, STD, and TB Prevention. Centers for Disease Control and Prevention 2016.
13) Oakeshott P, Kerry S, Aghaizu A, Atherton H, Hay S, Taylor-Robinson D, Simms I, Hay P. Randomised controlled trial of screening for Chlamydia trachomatis to prevent pelvic infl ammatory disease: the POPI (prevention of pelvic infection) trial. BMJ. 2010 Apr 8;340:c1642. doi: 10.1136/bmj.c1642.
14) European Centre for Disease Prevention and Control. Chlamydia control in Europe: literature review. Stockholm: ECDC; 2014.
15) Jerchel S. et al. A Human Fallopian Tube Model for Investigation of C. trachomatis Infections. Journal of Visualized Experiments, August 2012; 66 (e4036): 1 – 6.


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